segunda-feira, 14 de junho de 2010

Fala, Memória: Fazeres e dizeres da minha infância

*Evaldo Alves de Oliveira
No final dos anos 1950, Areia Branca era uma cidade com forte movimento de embarcações, utilizadas principalmente para o transporte do sal, que envolvia barcaças, rebocadores e botes, além, evidentemente, daquelas destinadas ao transporte de passageiros para as cidades e praias do outro lado do rio. Recebíamos, também, a visita de belos iates, com suas velas brancas e seu porte majestoso. O povo era pacato, e o clima que reinava entre as pessoas era de cordialidade e de respeito, embora a violência urbana já se mostrasse viva e atuante. Houve um delegado que prendia o sujeito e mandava que o elemento o esperasse na delegacia, que ele iria logo em seguida. E a pessoa detida ficava aguardando o delegado chegar. Os ladrões, pobres pés-de-chinelo, eram poucos. E todos conhecidos. Certa madrugada, uma dona de casa, ao perceber que havia alguém forçando a porta de sua casa, falou alto, simulado confiança: – Manoel, acorda! Tem um homem forçando a porta com uma cavilha! Anda, Manoel, Acorda!!! O ladrão, com a tranquilidade de quem comia uma bolacha na padaria de seu Lalá, respondeu: – Dona Joana, para com isso. Eu acabei de passar pelo Manoel, no cais, e ele ia trabalhar no rebocador. Vamos, passe logo a tarrafa dele pela janela do lado, que eu vou embora. Mas jogue a tarrafa sem olhar para fora. Janice, sentada no banco da pracinha, percebeu que uma garota a observava, fingindo conversar no banco em frente. Deu um tempo, para se certificar de que não era impressão sua, e disparou: – O que é que óia, eu não sou jóia. O que é que espia? Eu não sou jia. Antonio Cruz, menino esperto, fingindo não ter qualquer interesse no bolo que dona Noêmia estava tirando do forno, esticava aquele olhar pidão em direção à mesa, com ar de quem nada queria. Dona Noêmia, sem entender as intenções do garoto, falou: – Quer matar papai, oião? E tem mais: perto de quem come e longe de quem trabalha, garoto. Ao final, o garoto saiu à rua com uma boa fatia de bolo. Em plena festa de agosto, o comentário de quem fora à barraca de Zacarias, na pracinha em frente ao palacete municipal: “Tinha gente em tina”. Na rua da frente um senhor escorregou em uma casca de banana e caiu. Chico Lino correu para ajudá-lo a levantar-se. Logo se formou uma pequena aglomeração em torno, e o comerciante foi ríspido: – Vamos afastando todo mundo que não morreu galego não! À tardinha, eu e minha mãe fomos visitar dona Mariinha de seu José Cirilo. Na casa, a alegria dos filhos já crescidos – Maria Laís, José, Chico, Ceci, Anália e Raimundo. Após um café com tareco, preparávamo-nos para sair quando fomos impedidos por dona Mariinha: – Tomar vento depois do café? De jeito nenhum. Pode pegar um ramo. E ficamos por mais meia hora. A sorte é que o papo era dos melhores. Rua da Frente, bodega repleta de pessoas. Umas comprando víveres para casa, a maioria bebendo pinga. Um senhor no canto do balcão tomava uma dose de Conhaque de Alcatrão de São João da Barra, e contemplava o rio que passava em frente, silente, como a cumprimentar o manguezal ao fundo. Entrou alguém e comentou: – João Beá andou espalhando que recebeu uma boa herança de um parente, e até pagou bebida para os amigos. Um senhor veio de Mossoró e foi à casa dele cobrar uma conta antiga, de valor elevado. Coitado, a herança foi toda embora. O cidadão do conhaque falou, como se conversasse consigo mesmo: – Pois é, quem tem cabeça de cera não anda no sol. Pagou a conta e foi embora. Foi visto pegando a sopa que ia para Mossoró. (*) Evaldo Alves de Oliveira, areia-branquense. É médico e escritor.

Um comentário:

  1. Belas estórias, essas do Sr. Evaldo. Por acaso conheceu Capitão da Barra "in memorian" mestre de barcaça que trabalhou muitos anos na Wilson Sons, esposo de D. Cacilda? Conhece alguma estória interessante do mesmo? Gostaria que se souber de alguma publique. Sou Aldemar Dantas, marítimo, MCB, filho de Capitão da Barra. Um abraço.

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Jornalista do jornal O Mossoroense, redator do noticiário matinal “Costa Branca em Notícias”, da Rádio Costa Branca – FM 104,3 de Areia Branca (RN), onde aos domingos apresenta o programa de variedades “Domingão da 104”

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