Lei que denominou “Luiz Fausto de Medeiros” o Terminal Salineiro de Areia Branca foi sancionda pelo então presidente, Fernando Henrique Cardoso
O início da construção do Terminal Salineiro
A Lei nº 8.976, de 6 de janeiro de 1995, que denomina "Luis Fausto de Medeiros" o Porto-Ilha de Areia Branca, situado neste município, foi assinada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.
Nos seus escritos sobre Areia Branca, o saudoso Vingt-un Rosado sempre considerou Luiz Fausto de Medeiros o grande trabalhador do Porto-Ilha de Areia Branca. “O Porto-Ilha, sem dúvida uma brilhante solução de Andreazza (referência ao ministro dos Transportes na época da construção do terminal, Mário Andreazza) não era o sonho de Luis (Fausto) e Vingt-un. Mas, sua localização perto de Areia Branca não deixou de ser uma homenagem aos pioneiros. Nominá-los com o grande Luiz Fausto, foi iniciativa minha, junto ao deputado federal Laíre Rosado”, escreveu o mestre Vinht-un.
O Blog publica o ato administrativo da Presidência da República, que institui a denominação do Terminal Salineiro.
| Presidência da República |
LEI Nº 8.976, DE 6 DE JANEIRO DE 1995.
| Denomina "Luís Fausto de Medeiros" o Porto-Ilha de Areia Branca, situado no município do mesmo nome, Estado do Rio Grande do Norte. |
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º Fica denominado Porto-Ilha "Luís Fausto de Medeiros" o atual Porto-Ilha de Areia Branca, situado no município do mesmo nome, no Estado do Rio Grande do Norte.
Art. 2º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 3º Revogam-se as disposições em contrário.
Brasília, 6 de janeiro de 1995; 174º da Independência e 107º da República.
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Odacir Klein
Origem
Mário Andreazza (o quarto, à dir.) na inauguração do Porto-Ilha
A construção do Porto-Ilha de Areia Branca resultou da necessidade de suprir a demanda de sal marinho no mercado interno brasileiro. Dentre as hipóteses analisadas prevaleceu a da execução do sistema ilha artificial. O Decreto nº 66.154, de 3 de fevereiro de 1970, aprovou a constituição da empresa de economia mista Termisa – Terminais Salineiros do Rio Grande do Norte S.A. e, em maio de 1971, as obras foram iniciadas.
Após um período de paralisação, foi dado prosseguimento em fevereiro de 1973 e, no dia 1º de março de 1974, a ilha artificial construída de areia e aço, em alto mar, com aproximadamente 15 mil metros quadrados, passou a ser o porto de escoamento de todo o sal produzido no Rio Grande do Norte, realizando sua primeira operação no dia 04 de setembro de 1974.
O Terminal Salineiro de Areia Branca Luiz Fausto de Medeiros, também passou a ser chamado de Porto-Ilha.
Terminal Salineiro hoje, com a estrutura totalmente ampliada
Na construção desse terminal foram investidos 35 milhões de dólares. Um projeto de engenharia da empresa americana Soros Associates Consulting Engineers, reconhecido internacionalmente que ganhou o primeiro lugar em engenharia marítima e considerado um dos dez melhores projetos em todos os ramos da engenharia. É uma obra pioneira em toda a América Latina.
O porto é administrado pela Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern). Está localizado a 26 km a nordeste da cidade de Areia Branca, ficando o Porto-ilha cerca de 14 km distante da costa.
Sem estrutura financeira, candidato utilizou cartilha para conscientizar o eleitorado
Em cerca de três décadas de atuação em Areia Branca, o Partido dos Trabalhadores (PT) participou de várias campanhas eleitorais com candidaturas próprias a prefeito. Em 1988, disputou a prefeitura pelo partido a chapa formada pelos professores Gilson de Souza (prefeito) e Jorge Lemos (vive).
Propostas do candidato a vereador Ubiraci Seixas, em 88
Naquele ano, aconteceu um fato inusitado: o mestre de obras Walter Sales foi candidato a vereador e apesar de ter obtido votação suficiente para ocupar uma cadeira no Legislativo, perdeu a vaga porque o partido não atingiu o coeficiente.
Apesar de ter acontecido 24 anos atrás, aquela memorável campanha deixou algumas lições. O candidato a vereador Ubiraci Costa Seixas, sem recursos financeiros para confrontar os adversários, fez uma campanha de conscientização (coisa rara na política brasileira).
Ubiraci lançou uma cartilha (artesanal) onde fazia alguns questionamentos (e esclarecimentos) ao eleitor sobre “O que é política”; “O que é ser vereador?”; “A importância do voto”; “Você sabia que...”, abordagem sobre problemáticas envolvendo a saúde pública e o descaso da classe política em relação ao fato. Interessante. (Luciano Oliveira – Editor do Blog).Cartilha era a “arma” utilizada pelo candidato petista na sua campanha
Reminiscências de Souto Sobrinho resgatam fatos marcantes da política, no município
O resgate histórico de Areia Branca surpreende. Impressiona o conteúdo guardado nas gavetas do tempo. A dinâmica política local, é uma história. Fatos e personagens que marcaram época e ficaram lições que até hoje servem de aprendizado. Mesmo diante do acelerado processo de modernização, é na memória dos areia-branquenses que está guardado o maior tesouro.
Ubiraci Seixas aos 18 anos, candidato a vereador pelo PT
O ano é 1988. Souto Sobrinho destacava na sua coluna social de página inteira, semanal, no jornal Gazeta do Oeste, uma homenagem à Dra. Rosalba Ciarlini, “a rosa Rosalba, nela existe uma beleza que o tempo apenas confirma (...)”. E que “o PMDB também não está tão fraco, nos seus comícios vem apresentando destacada movimentação, mas não se igualando com a Frente Trabalhista Liberal”. A Frente em questão era assunto de praticamente toda a página do colunista. “Areia Branca viveu ontem (uma sexta-feira, dia 28 de outubro de 1988) na sua história política o seu maior acontecimento no que se refere a passeatas e comícios partidários” – aqui, numa alusão ao movimento político em prol dos candidatos a prefeito José Alfredo Rebouças e vice Luiz Duarte Vasconcelos, da Frente Trabalhista Liberal.
Na mesma página, Souto Sobrinho dada destaque ao candidato a vereador Reuben Rudson Costa de Góis, do Partido Liberal (PL). “O mesmo possui todas as condições para desempenhar o cargo de um grande edil”, dizia sobre o postulante.Coluna de Souto Sobrinho em 88, destacando aniversário de Rosalba e a candidatura de Reuben Góis a vereador, pelo PL
O presidente da Câmara Municipal de Areia Branca à época, o saudoso José Jaime Rolim, era “candidato ao 6º mandato nas eleições de 15 de novembro próximo”, como estava lá, na coluna. E ainda, uma homenagem ao ex-prefeito Carlos Soares (e candidato à época) pelo seu natalício transcorrido no dia 27 de outubro.
Mas o que chamou mesmo a atenção, naquela histórica coluna de Souto Sobrinho na Gazeta do Oeste de 24 anos atrás, foi o destaque que ele deu a um jovem candidato a vereador pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Entre os muitos jovens que pleiteavam uma vaga na Câmara Municipal, naquele ano, este era o mais jovem de todos, tinha apenas 18 anos e era aluno do Centro Educacional Desembargador Silvério Soares (hoje Escola Estadual Desembargador Silvério Soares).
A coluna também destacou a caminhada do presidente da Câmara Municipal à época, José Jaime Rolim, rumo ao sexto mandato legislativo
O jovem em questão é o hoje empreendedor e presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Areia Branca, Ubiraci Costa Seixas, que como candidato a vereador pelo PT em 88, já defendia propostas que estão se tornando realidade nos dias atuais, como a reconstrução do Estádio Municipal Dr. Gentil Fernandes, e eleições diretas para diretor das escolas (ambos efetivados na atual estão do prefeito Manoel Cunha Neto, “Souza”).
Carlos Soares, em 88, teve seu aniversário lembrado pelo colunista
Que cidade rica em acontecimentos! Bastou uma página escrita 24 anos atrás, pelo então colunista Souto Sobrinho, para se fazer uma verdadeira viagem no universo da política areia-branquense. (Luciano Oliveira – editor do Blog).
Mártires de Cunhaú e Uruaçu: a história do massacre sanguinário de religiosos e fiéis
Capela de Nossa Senhora das Candeias, em Cunhaú, onde acontreceu o massacre
Em 16 de junho de 1645, o padre André de Soveral e outros 70 fiéis foram cruelmente mortos por 200 soldados holandeses e índios potiguares. Os fiéis estavam participando da missa dominical, na Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú, no município de Canguaretama (RN). O que motivou a chacina? A intolerância calvinista dos invasores que não admitiam a prática da religião católica: isso custou-lhes a própria vida.
A chacina de Cunhaú
O movimento de insurreição contra o domínio holandês já começara em Pernambuco, mas, na capitania do Rio Grande do Norte, tudo parecia normal. Bastou, porém, a presença de uma só pessoa para que o clima se tornasse tenso: Jacó Rabe, um alemão a serviço dos holandeses. Ele chegara a Cunhaú no dia 15 de julho de 1645.
Rabe era um personagem por demais conhecido dos moradores de Cunhaú. Suas passagens por aquelas paragens eram freqüentes, sempre acompanhado dos ferozes tapuias, semeando por toda parte ódio e destruição. A simples presença de Rabe e dos tapuias era motivo para suspeitas e temores.
"Além dos tapuias, Jacó Rabe trazia, desta vez, alguns potiguares e soldados holandeses. Ele dizia-se portador de uma mensagem do Supremo Conselho Holandês, do Recife, aos moradores de Cunhaú.
No dia 16 de julho, Domingo, um grande número de colonos estava na igreja, para a missa dominical celebrada pelo Pároco, Pe. André de Soveral. Jacó Rabe mandara afixar nas portas da igreja um edital, convocando a todos para ouvirem as Ordens do Supremo Conselho, que seriam dadas após a missa.
Como havia um certo receio pela presença de Jacó Rabe, alguns preferiram ficar esperando na casa de engenho.
Quadro do Monsenhor Assis sobre os mártires de Cunhaú
Chegou a hora da missa. Os fiéis, em grupos de familiares ou de amigos, dirigiram-se à igrejinha de Nossa Senhora das Candeias. Levados apenas por cumprir o preceito religioso, os fiéis não portavam armas, mas só alguns bastões que encostaram nas paredes do pórtico.
O padre André inicia a celebração. Após a elevação da hóstia e do cálice, erguendo o Corpo do Senhor, para a adoração dos presentes, a um sinal de Jacó Rabe, foram fechadas todas as portas da Igreja e se deu início à terrível carnificina.
Foram cenas de grande atrocidade: os fiéis em oração, tomados de surpresa e completamente indefesos, foram covardemente atacados e mortos pelo flamengos com a ajuda dos tapuias e potiguares.
Ao perceber que iam ser mesmo sacrificados, os fiéis não se rebelaram. Ao contrário, 'entre mortais ânsias se confessaram ao sumo sacerdote Jesus Cristo, pedindo-lhe, com grande contrição, perdão de suas culpas", enquanto o padre André estava 'exortando-os a bem morrer, rezando apressadamente o ofício da agonia" (Verdonk).
Chacina de Uruaçu
Três meses depois aconteceu o martírio de mais 80 pessoas, e sempre pelas mãos dos calvinistas holandeses. Entre elas estava o camponês Mateus Moreira, que teve o coração arrancado pelas costas, enquanto repetia a frase: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento". Isso aconteceu na Comunidade de Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante (a 18 km de Natal).
Monumento aos mártires, em São Gonçalo do Amarante
Contam os cronistas que as notícias dos graves e dolorosos acontecimentos de Cunhaú se espalharam rapidamente por toda a capitania do Rio Grande do Norte e capitanias vizinhas. A população ficou assustada e temia novos ataques dos tapuias e potiguares, instigados pelos holandeses.
Também desta vez tudo aconteceu sob o comando de Rabe, ajudado pelo chefe potiguar Antônio Paraopaba.
Os índios já tinham sido avisados das intenções dos dois e lá estava o chefe potiguar com os seus comandados: mais de duzentos índios, bem armados.
Logo que desceram dos batéis, os flamengos ordenaram aos moradores que se despissem e se ajoelhassem. A um sinal dado por eles, os índios, que estavam emboscados, saíram dos matos e cercaram os indefesos colonos.
Teve início, então, a terrível carnificina, descrita com impressionante realismo pelos cronistas portugueses. Nas descrições, nota-se o contraste entre a crueldade dos algozes e a resignação e o perdão das vítimas:
"Começaram a dar tão desumanos e atrozes tormentos aos homens que já muitos dos que padeciam tomavam por mercê a morte. Mas os holandeses usaram da última crueldade entregando-os aos tapuias e potiguares, que ainda vivos os foram fazendo em pedaços, e nos corpos fizeram anatomias incríveis, arrancando a uns os olhos, tirando a outros as línguas e cortando as partes verendas e metendo-lhas nas bocas..." (Santiago).
A descrição da morte de Mateus Moreira é o ponto mais expressivo de toda a narrativa de Uruaçu e constitui um dos mais belos testemunhos de fé na Eucaristia, confessada na hora do martírio.
"Os algozes arrancaram-lhe o coração pelas costas, e ele morreu exclamando: 'Louvado Seja o Santíssimo Sacramento."
Processo de beatificação
O papa João Paulo II beatificou os mártires de Cunhaú e Uruaçu
Segundo Monsenhor Francisco de Assis Pereira, Postulador da Causa de beatificação desses Mártires, "a memória dos servos de Deus sacrificados em Cunhaú e Uruaçu, em 1645, permaneceu viva na alma do povo potiguar, que os venera como autênticos defensores da fé católica". O processo de beatificação foi concedido pela Santa Sé, no dia 16 de junho de 1989, e, em 21 de dezembro de 1998, o Papa João Paulo II assinou o Decreto reconhecendo o martírio de 30 brasileiros, sendo dois sacerdortes e 28 leigos.
Mons. Assis acompanhou o processo por mais de dez anos, reunindo documentos em pesquisas realizadas em Portugal, Holanda e no Brasil. Deste material resultou o livro Protomártires do Brasil, de sua autoria.
A cerimônia de Beatificação acontecerá no dia 5 de março, na praça de São Pedro, em Roma. A celebração será presidida pelo Papa. O Cardeal Dom Eugênio Sales, filho do Rio Grande do Norte, presidirá, numa Igreja de Roma, a missa em ação de graças pela beatificação dos Protomártires brasileiros, os primeiros que derramaram o sangue pela fé em nossa Pátria e cujo martírio é reconhecido oficialmente pela Igreja. Fala-se que um grande monumento será construído no local onde aconteceu o martírio de Uruaçu. (Com informações do Jornal Missão Jovem).
Fala, Memória: a gente era feliz, sabia e aproveitava
1ª Parte
A vida é realmente muito engraçada e curiosa. Nestes dias vi um ônibus da Empresa Teodoro, tratava-se do carro nº 06 cuja placa é MXT-1028 de Areia Branca-RN – alguns podem perguntar o que há de engraçado ou de curioso nisso – e tal visão me fez relembrar um tempo em que a gente era feliz, sabia e aproveitava.
Explico-me.
Eram os idos de 2001 – Meu Deus! Como o tempo passa rápido, lá se vai uma década e parece até que tudo foi ontem. No referido ônibus, habilmente guiado pelo grande e competente George, diga-se de passagem, que esse era o único automóvel disponível, pois naquela época não havia a fartura que existe hoje; uma verdadeira frota a disposição dos que queiram e/ou precisem deslocar-se até a Capital do Oeste para estudar, para buscar uma qualificação e o seu tão sonhado lugar ao Sol.
Professor Fabiano relata peripécias de uma época eternizada na memória
Naquela época, a sexta-feira era o dia mais aguardado por todos nós, não somente pela mística e por tudo que um dia como esse normalmente oportuniza, ou seja, descanso, possibilidade de ficar mais tempo com a família, reencontro com os amigos, aproximação do fim de semana com suas opções de lazer ou viagens..., mas, sobretudo, pelo paster, pela batucada (composta por uma timba, um afrouxé e um tamborim do amigo Christian Duarte), pelas inigualáveis paródias compostas por nosso colega Paulinho e, principalmente, pela farofa regada a muito refrigerante. Todos esses ingredientes juntos formavam a nossa querida e inesquecível fuzaka, sem o erre mesmo.
A seguir uma das paródias mais executadas, um verdadeiro clássico, inspirado na música Madagascar Olodum da grande Daniela Mercury.
OS VELHACOS
Por causa de vários velhacos, o pobre do Eilson ficou arrasado, ele então fica preocupado e pede socorro a Edvaldo:
- Edvaldo pague esta conta, no mês que vem a gente salda. Nessa fase negra, só me falta vender minhas calças.
Eilson então adquire poderes e paga a parte de Gonzaga, mas ele fica triste quando pensa nos quinze cobrar, acho que Onésimo sabe, que nessa cultura escolar, uns já desistiu e nem pagou o mês de março e abril, quero ver o ai, ai, ai, quando houver uma reunião, Eilson com a lista na mão dizendo assim:
- Quem tá devendo tenha compaixão!
E, êêê, vem me pagar velhaquê. E, aaa, vem me pagar, pagar (BIS)
Vem me pagar, Eilson diz por favor: Vem pagar. Eilson diz por favor: Vem me pagar. Eilson diz por favor: vem me pagar, Eilson diz por favor....
A, êêê, vem me pagar menos um. A, êêê, eu disse, eu disse, menos um vem pagar...
Vem me pagar, Eilson diz por favor: Vem pagar. Eilson diz por favor: Vem me pagar. Eilson diz por favor: vem me pagar, Eilson diz por favor....
Tem gente pensando que Eilson tá enricando com facilidade, éééé...., gente pensa que Eilson tem boa vida e vive na vaidade. Protestos, manifestações, faz velhaco para não pagar, mil desculpas ele tenta arrumar, mas se tem uma festa senha vai comprar.
Eram paródias como essa que animavam as nossas viagens para Mossoró, mais especificamente para a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) nas noites de sexta; clima de alegria, descontração e irreverência que se repetia e, sobretudo, se intensificava na volta para Areia Branca, pois ninguém mais poderia reivindicar o justo e inapelável direito de estudar para um trabalho ou prova, e no retorno para nossa querida Salinésia, como reza o adágio popular “Ninguém era de ninguém”, fazíamos até passeatas no ônibus e a viagem passava num “piscar de olhos”, certamente para corroborar outro ditado popular: “Tudo que é bom dura pouco”. A gente era feliz, sabia e aproveitava.
Conforme já mencionado, só dispúnhamos de um único “autobús” – para não me esquecer da Língua de Cervantes – e havia um sorteio mensal para ver quem tiraria a sorte grande de ir sentado durante aquele mês, porém, esse sortudo, já estava ciente que nos trinta dias subsequentes não teria direito a uma cadeira.
Vale salientar ainda que à época nós pagávamos uma mensalidade referente à contrapartida devida pela Associação Universitária Areia-branquense (AUA) para a quitação do contrato junto ao proprietário do ônibus, conforme mostra a figura abaixo. Ah, ninguém reclamava por isso.
A esse respeito, entristece-me lembrar que há bem pouco tempo entre os vários associados da AUA que além de continuamente lamentarem pelo retorno do pagamento da taxa, não participarem das reuniões, nunca estarem satisfeitos com nada e se queixarem de tudo e de todos, houve alguns – pasmemo-nos! Ou talvez não! – capazes de tentar ludibriar essa instituição e até mesmo o Banco do Brasil, ao colocar no caixa eletrônico deste, envelopes indicando valores destinados à AUA, quando na verdade os mesmos estavam vazios.
Continua no próximo domingo.
* José Fabiano Pereira da Silva, areia-branquense, professor de Língua Espanhola do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) - Campus Ipanguaçu. (fabianosales@bol.com.br)
Fala, Memória: a dor da perda é algo único, cada um sente de uma forma…
Tentar compreender algo que é certo, mas que jamais poderemos explicar é impossível. A dor da perda é algo único, cada um sente de uma forma, responde de uma maneira. Hoje está fazendo nove anos que você partiu, e eu não consegui controlar minha emoção e minha saudade.
Edilson Fontes, falecido em 2 de setembro de 2002
Devo confessar que chorei. Chorei ao relembrar todas as horas e todos os momentos de angústia, de tristeza, de dor e de muito sofrimento naquele 2 de setembro de 2002 .
É impossível não lembrar uma data que estará marcada para sempre em minha vida Se alguém me disser que este dia é como qualquer outro, na certa é porque não viveu para saber como dói perder um irmão tão lindo, tão dedicado, e tão querido como você.
Hoje passei o dia todo tentando preparar uma linda homenagem para você, mas confesso que não consegui realizar o que eu gostaria de ter realizado. Também quero deixar algumas linhas escritas, e tentar mostrar para todos os nossos amigos, o irmão maravilhoso que você sempre foi e continua sendo. Edilson, hoje você dorme o sono dos justos. Por quantos caminhos você percorreu, e nesse tempo quantas sementes de amor você plantou.
A sua fé sempre foi tão grande quanto a sua confiança em Deus, e isto o fez vencedor. Nunca ouvi você reclamar com aquela triste doença que te levou de nós... Achei que você foi um herói... Edilson meu coração ainda dói de tantas saudades de você.
Mano você me faz muita falta... Ainda sinto o cheiro do ultimo beijo que te dei quando te vi pela ultima vez...
Seu bom coração, todos eram bons, e você sempre os queria bem, não julgando este ou aquele, pois eram todos amigos, nobres e queridos amigos, era assim que você os chamava. Essa segurança que a sua curta vida lhe ensinou, não há escola que possa ensinar. Você tinha a balança nos lábios, sabia pesar e medir cada palavra, anunciando sempre a Esperança. Essa perfeição você alcançou no dia em que nos deixou, pois no Céu, alguém o amava mais do que todos nós. Deixou como exemplo e herança, bens como a honestidade para seus filhos se orgulharem de um dia você ter sido um bom pai, um maravilhoso filho, irmão, marido, sogro, avó mesmo que tenha sido por tão pouco tempo, pois sua netinha acabara de nascer tinha apenas três meses de vida.
Não sei se um dia poderei ser como você meu irmão, mas vivo na esperança e na certeza de que, se ao como mérito o prazer de no Céu te encontrar, pois é lá que irás morar eternamente.
Da sua eterna irmã, Elza Fontes.
Fala, Memória: Rua da Frente, uma avenida de contradições
*Evaldo Alves de Oliveira
Cortada pela margem direita do rio Mossoró, a Rua da Frente, com seu ar imponente de senhora da história, já ostentava, nos dias da minha meninice, ares altaneiros, como uma Esfinge, a se olhar no espelho d’água que todos os dias se oferece a sua frente, despudorado, fazendo de conta que não é rio, e brincando de se esconder no mar, eterno amante de hálito salitrado e cabelos revoltos com cheiro de maresia.
Pela manhã, o movimento de pessoas no Tirol era intenso. A pracinha, ao lado, funcionava como uma recepcionista de eventos, elegante, serena, solícita e bela. E o Tirol era assim, bonito, meio brejeiro, meio malandro, recebendo e despachando embarcações e passageiros, com seu charme de fiscal de estação de trem, com a água a bater em suas carcomidas costelas de ferro e concreto, no frenesi dos anos 1950.
A igreja de Areia Branca, sempre serena e de ar sério, também fica na Rua da Frente, fitando o outro lado do rio, abençoando em silêncio povos de todas as águas, de todas as areias, de todos os manguezais.
À frente, altaneira, sempre impondo sua dignidade, está a Rampa, intermediando o movimento de embarcações, veículos e pessoas, sendo diuturnamente banhada pelas águas do rio e visitada pelo mar, que se infiltra no rio e, sorrateiramente, beija seus pés e vai embora. Ainda é ali que as canoas – tendo a manobrá-las os senhores dos rios – chegam e saem, num frenesi de conversas e odores que se atropelam em seu costado. Era na Rampa que ancoravam os barcos dos beijus, com seu cheiro de mato e de frutas silvestres. Abasteciam a cidade com manga, banana, melancia, melão, coco, pequenos animais, beiju, ovos, mel de engenho e rapadura. A chegada dos barcos era uma festa para a meninada.
O Botequim da Bosta, equipamento comunitário nunca citado nos discursos e redações, foi o primeiro mictório público da cidade, e ficava na Rua da Frente, na beira do cais, em frente à bodega de seu Isídio. Era sujo, de cheiro forte, e utilizado pelos trabalhadores das embarcações e por toda uma fauna humana que circulava pela Rua da Frente.
A Usina de Luz era outro bem comunitário que valorizava a Rua da Frente, com seu ronco grave e seu fumaceiro escuro e fedorento. Batia ponto às dez da manhã e às dez da noite, tal qual empregado de shopping.
A maior parte do comércio de Areia Branca ficava na Rua da Frente. Eram lojas de tecidos (seu Quincó e Jales), bodegas (Zé Silvino, Antonio Calazans, Chico Lino, Antonio Noronha, Zé Leonel, seu Josa, Valdemiro, seu Isídio, seu Quidoca), padaria (seu Lalá), barbearia, bares e residências. Muita gente morava ali, inclusive eu.
Porém o mais típico da Rua da Frente eram suas figuras humanas. Marcaram época pessoas como Casca de Ovo, Fernando, Mundico, Esgalamido, Macaco.
A Rua da Frente, apesar de ostentar todos esses elementos arquitetônicos, e de sua exclusiva fauna humana, tinha um ar de nostalgia, uma quase tristeza, feito donzela abandonada, talvez pela indiferença e o descaso das autoridades, que não cuidavam de sua Esfinge. Crianças de outras ruas quase não se dirigiam à Rua da Frente, exceto quando em companhia dos pais. Não era chic. Exceto lá para os lados do Tirol.
Hoje a Rua da Frente tem um bom calçamento, um bonito cais e a elegância discreta de uma princesa. O principado? A própria deusa das salinas (Areia Branca).
(*) Evaldo Alves de Oliveira, areia-branquense. Médico e escritor.
Fala, Memória: Carago, o asfalto branco da minha meninice
*Evaldo Alves de Oliveira
Talvez a juventude atual nem conheça esse termo, mas em Areia Branca era chic ter a rua calçada com carago. Subproduto do sal, porém sem qualquer sabor, a não ser o de uma pedra, esse tipo de calçamento antecedeu o paralelepípedo e, obviamente, o asfalto.
As ruas, após o revestimento com esse produto, ficavam com aparência de asfalto, porém de cor cinza claro, quase branco, e com um clima melhor, mais fresco. E a meninada, passeando de bicicleta ou em suas brincadeiras, sempre dava preferência aos logradouros revestidos com carago.
À noite, grupos de crianças eram formados aqui e ali, a correr, gritar e se esconder, em suas brincadeiras hoje quase esquecidas. As cantigas de roda surgiam quase espontaneamente, e escravos de Jó jogavam caxangá, vira, bota, deixa o Zabelê passar, assim como a inesquecível lagarta pintada, quem foi que te pintou, foi a velhinha do tempo da areia, puxa lagarta na minha orelha.
Também eram comuns as estórias de fantasmas, contadas baixinho, todos com as cabeças juntas, para não perder uma frase sequer. Estórias de lobisomens, de bichos de sete cabeças, de almas penadas e bicho-papão; estórias de vozes ouvidas no meio da madrugada, quando o império da escuridão era desvirginado por elementos branquinhos, da cor de lençóis, que apareciam e sumiam. Uma certeza, apenas: eram fantasmas.
Adolescentes brincavam de passar o anel de mão em mão, com aquele final que todos conhecemos, e os namoros eram iniciados ali mesmo, nos olhares fugidios e nos escassos afagos. Pegar na mão era uma glória, e os encontros se sucediam noites após noites, até o grande dia de ir à casa da menina. Tinha que ter autorização dos pais.
Nas calçadas, os adultos e os idosos, em grupos, sentados em cadeiras ou em velhas espreguiçadeiras, punham a conversa em dia e falavam mal de qualquer coisa ou pessoa.
Os dicionários trazem apenas uma referência a essa palavra: é um substantivo depreciativo utilizado na Galícia, Espanha, lá onde fica Santiago de Compostela, mas, mesmo lá, não obtive sucesso em tentar uma tradução para essa estranha e rara palavra. O galego é, talvez, a língua que mais se assemelha ao português. Não sei explicar, mas o jota e o gê, na Galícia, são substituídos pelo xis. E eu ficava rindo com as placas nos prédios: Coléxio San Xerome, Bodega do Xulio, Recollida de Viaxeiros, Xoan XXIII…
Com sua magia extinta pelo progresso, o carago se enraizou em nossas mentes, e quando forçamos um pouco a memória, em uma viagem imaginária pelas ruas tranqüilas de nossa cidade, logo surge a imagem do nosso asfalto branco, que reluzia aos raios do sol, parecendo pequenos brilhantes espalhados pelo chão, outrora pisado por raríssimos carros e transeuntes felizes, a caminho do trabalho ou simplesmente de passagem para as compras no velho Mercado Público.
(*) Evaldo Alves de Oliveira, médico e escritor
Fala, Memória: O sobrado de Zé Filgueira
Construído pelo comerciante mossoroense, Souza Nogueira, nos finais do Século XIX. No ramo de “secos e molhados” vendia aos que ali transitavam: pescadores, barcaceiros, salineiros e banhistas que freqüentavam a “Praia de Zé Filgueira”. O sobrado era um prédio de frente ao Rio Ivipanim, ao oeste do manguezal da barra, de duas águas, formato retangular (15 x 5,5), térreo e 1º andar, área total de 165m2. Construção de terra batida (barro), entre toras de carnaúbas e aroeiras. O soalho superior (dormitório) de tabuado de maçaranduba do Pará.
Por trás do sobrado existia um armazém (8 x 4m), com porta larga gravada no pórtico alto relevo, a data de 1886; atrás deste, uma janela arejando o salão. Localizado lateralmente a um terreno, final do muro da firma Hernave Engenharia. O terreno de trás deste, ia até o “Tabaco Ventoso”, final as Rua do Progresso, hoje Silvério Barreto, local das salinas artesanais de Manoel Bento e mais distante a de José de Menezes Brasil.
Com aquisição desses imóveis por Zé Filgueira, este dito armazém foi transformado na famosa “Escola de Dona Maroca Filgueira”, um marco educacional de várias gerações areia-branquenses, como foram Hercília e Laura Noronha, Júlia e Natinha Alves, e, mais atual, Albertino Maciel e Chiquita do Carmo.
Zé Filgueira, de tradicional família abolicionista mossoroense, trabalhou na firma F. Souto. Delegado de Polícia, industrial salineiro, agropecuarista com fazenda no distrito de Entrada (hoje São José), neste município.
A prole do casal Filgueira e Maroca era de sete filhos homens (um par de gêmeos) e uma mulher – Carmem. Os homens, a maioria, herdaram a sua descendência genética. Alvos, ruivos, vermelhos, esguios. A filha Carmem, a mãe. Todos eles educados, inteligentes. Telúricos pela paisagem marinha do rio vista do 1º andar; alumbrados pelos “crepúsculo cor de rosa” das tardes fagueiras, onde se “bebe todo ouro do sol e todo perfume do alvorecer”.
Alguns deles ficaram por aqui, outros em Natal. Todos com passagem ou pela Receita Federal ou Alfândega Federal, setor de fiscalização na área portuária. Zé Filgueira, estatura mediana, esguio, bem vestido, passeava a cavalo todas as tardes, garborosamente pelas ruas da cidade.
Se Dom Quixote tinha o “Cavalo Rocinante”, seus moinhos de ventos, seu Sancho Pança e sua Dulcinéia del Taboso...
... Zé Filgueira também tinha o seu cavalo “Ouro Preto”, moinho de vento (de sua salina), seu “Sancho Pança” – o prático João Inocêncio, e sua Dulcinéia, “Honorina – a flor da estrada”, amiga de ambos. Não resta a menor dúvida: Zé Filgueira era o Dom Quixote Areia-branquense...
Hoje, o sobrado não mais existe. Foi tombado literalmente depois de três tentativas pelo cabo de aço da lancha Natal, de Wilson Sons. Os ventos alísios do norte já não varrem mais a vetustez das paredes brancas, somente fragmentos do que existiu. Restando “dúvidas, dívidas e dativas” do que se foi, como diria o poeta: “na passagem silenciosa das alvarengas rumo ao Porto-Ilha, já não se vê o sobrado, nem a luz mortiça do candeeiro que o iluminava... o que poderia ter sido e não foi...”. Só restou o tempo secular das vicissitudes vividas, sentidas e amadas: silêncio, solidão e mistério...
... Fantasmas lendários dos que ali, cercanias, foram mortos e sepultados pelo surto da varíola nos anos de 1910 (*).
Foi informante desses fatos históricos o memorista Raimundo Nonato (Dãodinho).
(*) Segundo relatos oficiosos, foi nesta época que aqui aportou, vindo de Natal, o cientista médico sanitarista paulista, Osvaldo Cruz (1872-1917). Pioneiro no combate de moléstias tropicais - surto de varíola e peste bubônicas – em várias cidades portuárias... Organizando os batalhões de “mata mosquitos”.
(*) José Brasil Leite, Odontólogo, escritor, poeta.
Fala, Memória: Em Lirismo, Othon Souza viaja no tempo na nave do saudosismo
Surpreendido pela chuva torrencial em plena Rua da Frente, rapidamente procurei abrigo na Retífica do Sr. Geraldo Araújo, casado com a Sra. Dalvinha, prima de papai. Eram os últimos anos da década de 70. Dentro da oficina encontrei o Araújo, seu filho, meu amigo de adolescência e parceiro no jogo de xadrez.
Araújo sempre foi um brincalhão. Com sua mão grande e forte, arrancou os meus óculos “fundo-de-garrafa”, me deixando quase cego e incapacitado.
A sensação foi de total impotência. Como Sansão ficou, ao ter os cabelos cortados, a mando da traição de sua amada Dalila. Quem é míope sabe muito bem do que estou falando.
Semi-serrei os olhos para melhor enxergá-lo, com vontade de esmurrá-lo, de tanta raiva que fiquei, pois o mesmo insistia em não me entregar os óculos.
Eu não passava de um magricela, com corpo de faquir. Só ganhava na altura para ele. Contudo, não era tão estúpido assim. Calculei que, mesmo de óculos, não era páreo para o mesmo.
Depois de muita insistência, vendo ele a minha aflição, me devolveu, mas antes, passou graxa nas lentes.
Procurei a biqueira mais próxima e os limpei. Retornei à retífica, ainda chateado, tentando não demonstrar, afinal, não queria dar o gosto ao companheiro de malvadezas, já que ele tinha atingindo seu alvo.
Em frente à Retífica, víamos o belo Rio Ivipanim. Nele estava ancorado uma grande embarcação de madeira de Zeca de Celso, entregue à própria sorte. O barco ali agonizava, sem coração, sem tripulação, sem alma, e nenhum cuidado.
Com a morte do seu proprietário, esperava somente que as intempéries o conduzissem para o fundo do rio, sua derradeira morada. Fato consumado com o tempo.
Próximo a ele ficava a rampa. Enxerguei os passageiros que iam e vinham da Barra, do outro lado do rio. Passada a chuva, caminhei para o lugar mais próximo possível deles. Queria admirar de perto aquele espetáculo. Uns com semblantes alegres, outros tristes, carrancudos… Cada um levando sobre si a sua história de vida, seus sonhos, esperanças, e pensamentos mil.
Chamou-me atenção um senhor moreno, parrudo, chapéu de palha na cabeça, jeitão de vaqueiro, que ia fazer a travessia com uma vaca, como companheira de viagem.
Achei inusitada aquela cena. Nunca tinha visto uma vaca nadar, exceto na televisão e nos cinemas.
Completada a lotação da canoa, a vaca foi entrando sem medo no rio, tangida pelo canoeiro. O senhor de chapéu, dentro da canoa, puxou-a pela corda, e enlaçou-a no banco que estava sentado.
O barco foi se arrastando suave, lentamente, como num lamento infindo, carregado pela correnteza do rio e o assobiar triste dos ventos, naquele entardecer melancólico.
Havia algo de lírico no silêncio oculto da paisagem deslumbrante, e no morno entardecer, querendo expressar o mundo interior de quem estava atento a tudo e a todos.
Os raios do sol beijavam o rio, e o reflexo tênue desta paixão resvalava-se na vela branca triangular da frágil embarcação, enchendo os passageiros de esperança e emoldurando o contentamento do marulhar das ondas, que emitia um canto lírico, ao tocar nas embarcações e no cais.
Vi o barco desfilando majestoso pelo filete d’água, entrando numa passagem estreita entre os manguezais do outro lado, e sumindo do alcance da minha visão.
Cada um dos passageiros foi para sua lide. Os do lado de cá também.
Voltei feliz para casa, solfejando Jesus, alegria dos homens (J.S. Bach), e penetrando na dimensão das regiões sonoras.
Othon Souza, filho do prático Zé Antonio e de ”Belezinha”. Nascido em Natal, teve sua gênese em Areia Branca a partir dos últimos anos da década de 60, quando para cá se dirigia nas férias escolares. Graduou-se Engenheiro Agrônomo e pós-graduou-se mestre em agronomia, pela antiga ESAM, em 1996. Atualmente reside em Rio Branco capital do Acre.
Fala, Memória: Madureira, Ypiranga, Felinto e as recordações dos craques no passado
Na sexta-feira, 30, foi enterrado mais um ilustre filho da terra, que além de prestar serviços por décadas como servidor do município, ainda deixou seu nome grafado como craque do futebol no passado, cujas peripécias com a bola o tempo tratou de imortalizar. Felinto Azevedo Júnior (em foto recente com a neta Thaisinha Melo) morreu, mas dificilmente será esquecido pelos que aprenderam a admirá-lo pelo bom homem e exemplo de vida que deixa para os seus familiares.
O blog presta uma singela homenagem ao saudoso Felinto, publicando textos de Antônio Fernando Miranda e Othon Souza (extraídos do blog www.areiabranca.wordpress.com) sobre os times que encantaram, na época (Madureira e Ypiranga), pelos quais passaram Felinto e seus irmãos. Os registros apontam que Felinto jogou muita bola como quarto zagueiro. Vale a pena ler de novo.
Madureira cheio de glória
· Antônio Fernando Miranda
No final da década de 1940 para inicio da de 1950, o futebol areia-branquense foi representado com muito orgulho, pelo Madureira. O seu presidente, senhor Antônio Noronha, muito contribuiu para o sucesso do clube. Acredito que se necessário fosse, ele daria a vida pelo Madureira. Jogadores memoráveis estão na lembrança dos que os viram jogar. Zé de maninha, os irmãos Dadim e Afonso de Bagaé, Dico, João saruê, Amauri, Toinho de Amaro Duarte, Zé de Selé, Toinho de Leônidas, Chico de Amaro besouro, Louro, “fuzarca”, Chico amarelinho, Zequinha melado e tantos outros. Esta citação é aleatória. Desses, fora os dois matusaléns (Toinho de Leônidas e Louro), os demais, creio que sejam de saudosa memória.
Algumas vezes, esse time foi reforçado por Valeriano e Dequinha (de Mossoró), que tempos depois brilhou no flamengo, e que foi convocado para a seleção brasileira de 1954.
Com a extinção do Madureira e a aparição do Ypiranga, surgiram novos craques como os irmãos Luiz, Felinto e Dedé, Zé de Cadinha, Lourinho, Zumeira, Marieta, Dedeca de Quinca Simeão, Queca, Tristão, Zé de Isaura, Agostinho, Charuto, Amaro Carapeba, Barbosinha e tantos outros.
Na época do Madureira, para ser bom goleiro, era necessário “ensacar a bola”, (segura-la com firmeza), e não “bater roupa”, (espalmar), como é comum no futebol atual. Zé de Maninha foi um grande “ensacador”. Eu o comparava ao grande goleiro vascaíno Barbosa, com as suas defesas magistrais. Faz-se necessário, também, recordar as jogadas geniais de Louro, as bicicletas de Toinho de Leônidas, que guardadas as devidas proporções, como gosta de dizer Francisco Rodrigues da Costa (Chico de Neco Carteiro), nada ficava a dever com as do grande Leônidas da Silva, a quem se credita ser o inventor de tal jogada. Sobre este (Toinho), lembro-me de uma vitoria apertada, sobre o União de Mossoró, cujo único gol, foi de sua autoria, e de bicicleta!
As jogadas precisas de Chico de Amaro que sempre terminavam em gol, os cruzamentos certeiros vindos da ponta direita feitos por Zé de Selé. Os passes de calcanhar de Fuzarca, na ponta esquerda, merecem ser relembrado, isto porque, muito antes de Sócrates mostrar para o mundo através da mídia os seus passes de calcanhar, nós em Areia Branca já vibrávamos com os de Fuzarca. Na página 117 do seu livro “Saudades”, Francisco Rodrigues da Costa (Chico de Neco Carteiro) relembra este fato. A linha do Madureira formada por Zé de Selé, Toinho de Leônidas, Chico de Amaro, Louro e Fuzarca, era simplesmente arrasadora.
Os seus atacantes tinham grande mobilidade, graças também a sua excelente linha defensiva. Se no Santos existiu a famosa tabelinha Pelé x Coutinho, no Madureira existiu muito antes do Santos, a tabelinha Toinho de Leônidas – Chico de Amaro – Louro, para desespero dos goleiros adversários. Esta tabelinha é confirmada pelo ultimo verso da musica que Zé de Frederico fez, após vitória do Madureira sobre o potiguar.
Como o Madureira tinha bons jogadores, é claro que tinha também inúmeros torcedores. Dois deles ficaram gravados na minha memória, pelas suas maneiras de torcerem: Seu Avelino, irmão de Raimundo e Luiz Mariano, e padre Ismar (todos de saudosa memória). Seu Avelino, quando os atacantes do Madureira estavam próximo ao gol adversário, ele na ânsia de ver o gol concretizado, chutava o vento como se fosse a bola, e ai daquele que estivesse à sua frente, pois recebia um certíssimo chute. E padre Ismar, que após a concretização de um gol no time adversário, dava pulos de alegria, e pulando, suspendia a batina ate a cabeça gritando gooool!!! Era uma emoção total.
Desde 1950 sou vascaíno, ano em que o Vasco da Gama foi a base da seleção brasileira, quando forneceu 8 jogadores do seu plantel. Eu associava a maneira de alguns jogadores local, aos grandes astros do Vasco da Gama. Assim, entre outros, Zé de Maninha era Barbosa, Amauri Trajano e posteriormente Felinto, eram Danilo Alvim, Dadim e Afonso de Bagaé eram Augusto e Haroldo, Zé de Selé era Friaça, Chico de Amaro era Ademir, o Queixada, Louro era Maneca e Fuzarca era Chico.
Ypiranga Centro Areia-branquense
· Othon Souza
Quando ainda eu não era nascido, nos primeiros anos da década de 1950, o Ypiranga foi um dos times de futebol de grande prestígio em Areia Branca. Os jogos eram realizados no Campo da Saudade, local vizinho ao cemitério público, que hoje é área pertencente à Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern). Os saudosistas me falaram sobre o timaço que abrilhantou aquela década. Pouco importa se eu não o vi jogar, o interessante é que ele veio e deixou sua marca e saudades.
Os craques do Ypiranga, a partir da esquerda, em pé: Felinto, Tristão, Dedeca de Quinca Simeão, Louro, Toinho Duarte e Zé Maria. Agachados: Zumeira, Queca de Izídio, Pedro Caminhão, Luiz de Felinto, Cadinha e Sapinho
Fala, Memória: Uma pérola da coletânea “Crônicas escolhidas”, de Souto Sobrinho
A sessão Fala, Memória dessa semana presta homenagem ao saudoso Francisco Souto Sobrinho, que faleceu no último dia 22, aos 86 anos, de insuficiência respiratória. Em outubro de 1999 ele reuniu em livro uma coletânea das melhores das crônicas que lia diariamente no seu programa social “Calendário”, apresentado por mais de uma década na Rádio Gazeta do Oeste. No livro “Crônicas Escolhidas”, Souto Sobrinho filtra os acontecimentos mais importantes do cotidiano potiguar, com registro dos pomposos bailes que promovia no Ivipanim Clube, as homenagens às pessoas do seu convívio, além dos fatos marcantes da sua vida pessoal. Vale a pena ler de novo a crônica escrita por Souto Sobrinho em 1988 exaltando a figura do então ascendente líder político Expedito Gomes Leonez. O que não deixa de ser, também, uma homenagem do blog ao ex-prefeito que está travando uma batalha em defesa da sua saúde. Uma pérola. Leiam.
MENSAGEM AO PREFEITO LEONEZ - 1988
Leonez, você é muito importante para os seus munícipes. Você trabalha, gosta, corre muito para dar aos mesmos o que há de melhor para vê-los felizes. Você sorri quando se acha cercado pelas pessoas carentes porque sente que elas são felizes quando estão ao seu lado. Você sente-se infeliz quando no momento da necessidade não pode atendê-las.
Você, Leonez, é um herói, não sabemos o que existe intrinsecamente em sua pessoa, porque ela transmite a todos segurança, coragem, beleza, alegria e fé. Você fica triste, mas não se desespera. Você acalma-se, reage e resolve muita coisa impossível, quando vê as pessoas solitárias com o olhar tristonho, com o rosto cansado, escondido, demonstrando sinal de amargura pela falta do necessário.
Você, Leonez, comunga a hóstia da fraternidade, do convívio saudável e arejado das pessoas pobres, lado a lado, sem ver os abismos separando os pobres dos ricos, emitindo entusiasmo e amor aos infelizes. Você é o homem que chega em todas as horas, boas e ruins, alegres, ou tristes, porque parece adivinhar, descendo para acalentar ou resolver problemas.
Você, Leonez, é como um laço de amor, é uma renovação constante. Você ensina o seu povo a ternura da vida, distribuindo a verdade pela grandeza do seu espírito, porque sem ternura e amor a vida seria uma angústia, portanto, um desespero.
Você, Leonez, é um mandamento do amor que o Cristo nos legou; o dom inefável da comunicação, do relacionamento e da satisfação. Você não sente ódio no seu coração, somente o amor nele existe, porque o ódio foi um predicado que o Mestre riscou de sua personalidade. Você sempre procura se reconciliar com o povo, levando sua mensagem de amor, carinho e abnegação porque só o amor constrói para a eternidade.
Você, Leonez, claro, conhece a você mesmo. Você sendo um homem inteligente, sabe que só o homem possui desenvolvimento para falar, dominar o hábito esquecendo o mal. Você conhece muita gente importante, mas nunca esquece de ficar ao lado dos seus irmãos necessitados, o povo. Você não reclama de nada na vida porque acredita em Deus e Ele é quem lhe dá coragem por esta sua grandeza espiritual.
Você, Leonez, mesmo distante das tempestades, dos infortúnios da vida, sabe resolver com paciência e amor as borrascas que a vida nos traz. Você é luz, amor, coragem, calma, plenitude, humildade, alegria, uma transfusão abençoada pelo Divino, restituindo a esperança àqueles que não acreditavam mais em nada.
Você, Leonez, é o leão que despertou para o poder de Deus dentro de si, porque pode tomar posse do seu reino, de conceitos, regulando suas emoções recusando qualquer pensamento negativo que persista entrar em sua mente. Você possui o poder positivo de pensar, imaginar e sentir construtivamente algo que lhe encoraja sobre o seu mundo interior, porque o homem é uma espécie re teclado infinito do nosso próprio Deus. Você é um homem educado, modesto, amigo em todas as horas, em todos os instantes e em todos os momentos. Você sofre quando vê as pessoas sofrerem por necessidade, pela falta de carinho, de união, de solidariedade e pelos infortúnios da vida. Você é grande espiritualmente em todas as horas, em todos os momentos onde a tristeza persiste, porque você sempre chega com a finalidade de afastá-la para deixar qualquer pessoa feliz.
Você, Leonez, leva a paz, saúde, beleza e vida para demonstrar a quem precisa de sua solidariedade e gratidão. Você, Leonez, tem sabido com galhardia e dificuldade desempenhar com honra, moral e equilíbrio ocupar o pesado cargo de prefeito, missão tão espinhosa e pouco compreendida. Portanto, Leonez, você vale, por si só, uma vitória, uma bandeira de lutas, contra a mentira, a inveja, calúnias e injúrias, que negam você não ter feito nada pelo município de Areia Branca.
Você, Leonez, é força, coragem, bondade, gratidão, honra, respeito, trabalho, dedicação, solidariedade, humildade, justiça e um grande amigo. Você tem sempre em sua pessoa e em sua vida um lugar para todos nós, que é um reservatório impoluto, o sacrário do seu pequeno e grande coração.
Você, Leonez, poderá dizer: “quando sou fraco é então que sou forte, porque é através da provação e da fraqueza humana que Deus nos torna fortes”.
Você, Leonez, bem sabe que os homens, em geral, invejam ou odeiam os que comandam, os ocupantes de lugares privilegiados e que possuem uma estrela brilhante.
Você, porém, é uma exceção.
(Extraído do livro “Crônicas Escolhidas”, de Francisco Souto Sobrinho)
Fala, Memória: Do Mosteiro dos Jerônimos à igreja matriz de Areia Branca
*Evaldo Alves de Oliveira
Desde o século passado que as três badaladas do sino da igreja anunciam que alguém morreu. Em Areia Branca também os sinos dobram, com três toques carregados de tristeza, sendo o primeiro mais longo e grave, seguido de dois mais agudos e curtos. Em uma época em que não havia nem telefone fixo, aquela era a forma mais simples de convidar as pessoas para o velório. E o disse me disse entre as pessoas durava o dia todo, até a hora do enterro.
As procissões da Semana Santa emocionavam a todos, com sua pesada aura de sentimentalismo e religiosidade. E uma imagem se destacava, e ainda hoje faz brotar lágrimas nos olhos das pessoas de muitas procissões, revivendo antigos sentimentos. É a imagem de Cristo carregando a cruz, retratado quase de joelhos, com o sofrimento a lhe marcar as feições.
E ficou cravada em minha mente a figura de Cristo, quase de joelhos, com uma cruz de madeira nos ombros. Mas o vigor da imagem foi perdendo as cores em minha lembrança, a ponto de se tornar embaçada, turva, quase apagada.
Passeando por Portugal, Lisboa, Mosteiro dos Jerônimos, capela lateral, já quase de saída, a surpresa: uma imagem de Cristo, quase de joelhos, carregando uma pesada cruz de madeira. Parei, olhei e concluí: já vi esta imagem. Onde? Já vi inúmeras imagens de Cristo pelas igrejas do mundo, mas aquela tinha um sentido especial. E repassei as grandes catedrais do mundo, que conheci em minhas peregrinações. E, como em um filme, as imagens foram se sucedendo: São Pedro, em Roma... Milão, na Itália... Barcelona, na Espanha... Santiago de Compostela, na Espanha... Catedral de Sevilha... de Burgos, na Espanha... Catedral de Berlim, de Praga, de Budapeste, de Paris, de São Paulo, em Londres, na Eslováquia... e o filme continuou passando em minha mente. De repente, parou. Não havia qualquer dúvida: foi na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Areia Branca.
A mesma imagem do nosso Cristo, quase de joelhos, com uma grande cruz de madeira nos ombros, com aquele olhar sem brilho, meio perdido, que todos nós reverenciamos, está na igreja de Areia Branca, do mesmo modo que na capela do Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa.
Quem viajar, verá.
(*) Evaldo Alves de Oliveira, médico e escritor. Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN
.
.
.
.
.
Pesquisar Notícias
Notícias por Tema
Quem sou eu
- Luciano Oliveira
- Jornalista do jornal O Mossoroense, redator do noticiário matinal “Costa Branca em Notícias”, da Rádio Costa Branca – FM 104,3 de Areia Branca (RN), onde aos domingos apresenta o programa de variedades “Domingão da 104”